CLAUDIA LAGE: o corpo interminável chamado Brasil

São essas pessoas transformadas em corpos que a moça que olhava o adesivo na janela se une.

Corpo: um conjunto de diversos sistemas que realizam atividades particulares, embora, esses sistemas sejam interdependentes. O corpo tem doze sistemas específicos: tegumentar, esquelético, articular, muscular, cardiovascular, respiratório, digestivo, urinário, genital, nervoso, endócrino e linfático.

E quando um desses sistemas falham? E quando o corpo é um conjunto de ausências ou uma organização sistêmica cujo comando central foi acometido por uma amnésia?

Em O corpo interminável (Record, 2019), segundo romance da escritora e roteirista Claudia Lage, há uma narrativa dessa ausência – uma ausência sentida em um livro cujas páginas foram arrancadas. Um livro que migra do país das maravilhas para o país do terror. Um livro sobre buracos. Um livro sobre covas e corpos suspensos.

“MAS ESSE BRAÇO ERGUIDO PARA O NADA ENTRE AS PAREDES, ME DIGA, É O INÍCIO DA LOUCURA? (PÁG. 13)”

Um braço erguido. Assim começa esse corpo interminável. Um braço erguido que lembra rendição. Rendição de um corpo. Um corpo vulnerável. Um corpo sem defesa. Mas também pode ser resistência. Uma saudação da frente popular. Uma saudação antifascista.

“POR QUANTO TEMPO UM BRAÇO ERGUIDO CONSEGUE SUSTENTAR O PRÓPRIO PESO SEM TOMBAR DE DOR? (PÁG. 16)”

Há um livro nas mãos de alguém. Penso nesse livro como um corpo pós-ditadura. Um corpo pós tortura e só consigo visualizar uma desmemória que não sabe distinguir um sistema digestivo de um sistema nervoso.  

Será possível que esse corpo volte a intuir e processar corretamente suas funções? Será que algum dia nos recuperaremos ou nosso destino é esse ciclo inalterável de erros?

POR Que se repete uma frase, ou qualquer coisa? O que a repetição traz que já não existe na primeira vez? (pág. 51)”

A obra, embora ressuscite a história do regime autoritário que vivemos no Brasil, em um período de vinte anos, é narrada de uma forma muito poética, com vozes e perspectivas diferentes. A autora tem um domínio de ritmo que me encantou muito – sou uma entusiasta de que todos os textos sejam poéticos, mesmo quando se trata de uma narrativa desconfortante como a Ditadura Militar.

O corpo interminável é um romance sobre afetos interrompidos pelo medo. Afetos também que são puro medo. Afetos silenciados. Mães e filhos que nunca se encontraram. É a narrativa de um sistema corporal incompleto – representado por uma célula familiar.

“Eu quase escrevi, talvez tenha escrito, não importa o quanto se tente apagar algo, destruir alguém, sempre há alguma coisa que sobrevive: mas não, cairia mais uma vez nessa busca idílica, uma imagem literária de uma sofrida e bela esperança, não, até os restos são abandonados, escondidos ou destruídos. Nada sobra. Ninguém. É tão pouco falar do adesivo na janela e da moça que o olhava, um esforço, sei, de arrancar essa moça do passado desse menino, desse filho, como algo inalcançável, uma imagem etérea, e única num retrato, e trazê-la para o quarto, para a casa, colocá-la andando entre os cômodos e se preparando para dormir, ou acabando de acordar, esse é o verdadeiro sofrimento desse filho, que não consegue imaginar a mãe como uma pessoa que se pode encontrar na esquina, uma pessoa que existiu, mas é tão pouco quando há algo maior aí que se cala, pessoas que foram arrancadas de suas casas, de suas famílias, e sumiram depois de longas sessões de torturas, jogadas no fundo do mar, incineradas em fornos a lenha, industriais, ou enterradas em cemitérios clandestinos. São essas pessoas transformadas em corpos que a moça que olhava o adesivo na janela se une… (pág. 43)”

Somos o desenho de um corpo social mutilado? Fico aqui me perguntando ao terminar a leitura desse romance. Qual corpo habitamos no presente? E surge outro desenho: um corpo anestesiado e incapaz de perceber que há tempos falta algo. Um corpo incapacitado de sentir aquela coceira imaginária de um membro amputado – pois, para sentir, é preciso memória.  

Um braço erguido e toda a minha admiração por essa obra.

CONVERSA COM A AUTORA

LISA ALVES ::: Qual foi a parte de O corpo interminável que mais pesou para escrever?

CLAUDIA LAGE ::: Inicialmente, as partes relacionadas à violência, à tortura, foram as mais difíceis, mas depois, durante o processo, lidar com as consequências existenciais deixadas por esses traumas nas vidas dos personagens foi bastante perturbador. Perceber que está tudo emaranhado, as dificuldades de se relacionar, de amar, a entrega que exige o amor, a confiança, a abertura para olhar o outro, até se colocar no lugar do outro, uma certa incapacidade de troca verdadeira, sem defesas e ataques; que essas sensibilidades todas comprometidas, repletas de falhas e erros, são uma espécie de herança do horror, da violência, também do silenciamento e da amnésia pessoal e coletiva.

LISA ALVES ::: Como foi ressuscitar uma memória que é uma página apagada para a maioria da população brasileira?

CLAUDIA LAGE ::: Eu sou fascinada pelo que está embaixo do tapete. Me parece sempre mais interessante do que está em cima. As narrativas que partem desse lugar, de apagamento, ou algo oculto, ou marginalizado, me impactam muito. Junto a isso, sempre me intrigou o silêncio ao redor desse tema, desde a minha infância. Por que não se fala na ditadura? Nas pessoas desaparecidas? Eu lia muito peças do teatro do absurdo quando comecei a fazer teatro, na adolescência, e me lembro de uma cena em especial, no qual um homem e uma mulher estão num vagão de trem e começam a conversar casualmente. Vão percebendo diversas afinidades até que descobrem surpresos que moram na mesma rua, na mesma casa e dormem na mesma cama. Enfim, são casados, e desconhecidos um para o outro. Tirando a parte cômica, essa perplexidade das relações, as lacunas entre as pessoas, faziam um paralelo para mim em relação às memórias da ditadura. De repente, alguém com quem eu convivia falava que tinha sido guerrilheira, de repente, podíamos cruzar na rua com um antigo torturador, é algo que só de pensar parece absurdo, e que foi naturalizado totalmente.

LISA ALVES ::: Há uma busca de um filho pela mãe desaparecida durante a ditadura, há também uma presença muito forte de mulheres e do tema maternidade no romance. Como foi construir essa narrativa no contexto da Ditadura?

CLAUDIA LAGE ::: Daniel é um homem quebrado por desconhecer as suas origens, mas também é quebrado pelo patriarcado, que o ensinou a negar a importância dos sentimentos e elos afetivos. Inicialmente, ele reproduz o silêncio do avô, de forma inconsciente. Ele se permite aproximar da ditadura, que faz parte da história de sua mãe, de forma racional, lendo, pesquisando, mas não de forma afetiva, emocional, não completamente, ele sempre se esquiva quando chega perto demais, até que isso é desconstruído pela relação com a Melina, com a proximidade da dor dela, e da sua própria dor, e de repente ele é invadido pelas histórias das mulheres guerrilheiras, enquanto se abre mais ao próximo e também ao amor, que também é uma forma de se abrir para si mesmo. Não parece, mas é, de certa forma, um livro otimista, que acredita nessa possibilidade.

E as mulheres guerrilheiras representam uma forma de estar no mundo muito potente, elas estão ali nas ruas lutando contra a ditadura, e estão também amando, transando, gestando, parindo, incluindo os seus corpos e afetos em tudo que fazem e são, nada se exclui, nem se separa, embora o mundo e a sociedade fizessem (e ainda fazem) essas separações e exclusões. A mulher que luta não pode ser mãe, a que é mãe não pode lutar, a que transa não pode ser mãe, a que não transa serve para casar, a que luta não serve para casar, são infinitos os rótulos dados às mulheres, ainda mais naquela época.

LISA ALVES ::: Por que a escolha de Alice de Lewis Carroll para acompanhar Daniel?

CLAUDIA LAGE ::: Foi por instinto, inicialmente, abri o livro numa livraria numa página ao acaso, e me deparei com o trecho em que Alice encolhe e estica, sai da “realidade” em que vivia para outra completamente diferente, que não conseguia entender. Ficou em minha mente este trecho por muito tempo, até que quando tive a ideia de a única herança concreta de Daniel ser um livro, lembrei dessa passagem. Me pareceu um paralelo interessante, uma pessoa se sentir menor por conta da repressão, o seu espaço ser encolhido, a sua mobilidade diminuída. Depois, outras possibilidades apareçam, é um livro que tem uma forte carga psicológica, densa, embora seja dito como infantil, está no limiar de várias leituras, como também a linguística, há uma língua inventada, algo que necessita ser renovado para fazer sentido, é como eu sentia a parte da mulher no exílio, que para continuar precisava encontrar uma nova forma de estar no mundo, o que inclui a linguagem também.

LISA ALVES ::: Anistia é considerada uma lei do esquecimento. Você vê alguma relação desse esquecimento com o resultado das últimas eleições presidenciais?

CLAUDIA LAGE ::: A história do Brasil tem várias anistias, é um grande problema, tornou o brasileiro, de forma geral, apolítico. A anistia de 1945 possibilitou a repetição dessa estratégia de “pacificação” do país anos depois em 1979, e a anistia de 1979 provocou um esquecimento tão grande de nossa história recente que por sua vez permitiu que um político de extrema direita elogiasse um torturador em pleno congresso sem sofrer nenhuma consequência, e anos depois, fosse eleito presidente de forma democrática.

LISA ALVES ::: Replico aqui a pergunta que fiz durante a minha leitura poética: se o Brasil é o corpo interminável, tivemos algum avanço na arquitetura desse corpo?

CLAUDIA LAGE ::: Talvez a percepção de que somos um corpo mutilado, falho, anestesiado, como você disse na sua bela leitura, e que para recuperarmos o vigor e alguma inteireza precisamos recuperar também a memória desse corpo.

LISA ALVES ::: Se O corpo interminável se tornar um filme futuramente, qual a trilha principal dessa história?

CLAUDIA LAGE ::: Ah que bacana pensar nisso… Eu ouvi muito as músicas da época enquanto escrevia o livro, e uma que acabou entrando no livro foi a do Secos e Molhados, “Que fim levaram todas as flores”, na parte das duas mulheres e da criança, que estão clandestinas.

LISA ALVES ::: O que você tem lido ultimamente?

CLAUDIA LAGE ::: Gosto de ler um livro de ficção e um de não ficção ao mesmo tempo, geralmente ensaios. Tenho lido muito escritores que viveram em tempos de repressão, ou entre guerras, me interessa como essas vivências entraram em suas narrativas, ou o pensar sobre a escrita, a literatura. Comecei a fazer essas leituras na época da escrita do romance, e agora está se expandindo. A Natalia Guinsburg e a Marguerite Duras são leituras que me acompanham sempre.  Engraçado que mencionei o teatro do absurdo antes, e de repente voltei a ele, outro dia estava lendo Beckett, não o teatro, mas um dos seus ensaios, que fala justamente sobre a literatura nesses tempos, “a escrita não é sobre algo, ela é aquele algo em si mesmo”.

LISA ALVES ::: Para finalizar: um filme e um livro que você indica para compreender o período ditatorial no Brasil.

CLAUDIA LAGE ::: Um filme sobre a ditadura que acho muito bom é bem recente, Deslembro, de Flavia Castro. Tem uma perspectiva dessa geração, os filhos dos guerrilheiros, que tiveram que lidar com as ausências e a desmemória de suas histórias. E um livro, fico com a minha memória de adolescente, As meninas, da Lygia Fagundes Telles. Me marcou muito por mostrar o impacto da repressão na psicologia das personagens.

Claudia Lage (Brasil) escritora e roteirista brasileira, publicou o livro de contos A pequena morte e outras naturezas, bem como o romance Mundos de Eufrásia, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2010. Escreveu, ainda, Labirinto da palavra, com ensaios-crônicas sobre literatura e criação literária, tendo recebido o Prêmio de Literatura de Brasília e finalista do Prêmio Portugal Telecom. Seus roteiros podem ser vistos na TV Globo, Conspiração Filmes, entre outras produtoras. Atualmente, ministra cursos de roteiro e criação literária no Rio de Janeiro (RJ).

  • crédito da foto: Flávia Lage