Tudo que morde pede socorro: a narrativa da escravidão dos corpos

Por quanto tempo se arrasta uma agonia? O corpo a corpo estúpido com a morte? Tânato resfolegando em espera. Dor e espera. Sofrimento e espera. Sangue.

Corpo:  conjunto de órgãos e tecidos que formam um ser vivo. O corpo humano é formado pela cabeça, pelo tronco, pelas terminações superiores (os braços) e pelas terminações inferiores (as pernas). Os principais elementos químicos presentes na massa corporal humana são: o carbono, o hidrogênio e o oxigênio. Todos os corpos da espécie homo sapiens seguem a mesma estrutura química, a mesma estrutura física e possuem o mesmo sistema orgânico. Porém, alguns corpos se acham no direito de dominar outros corpos, de legislar sobre eles, de escravizar de inúmeras formas, de violentar no campo físico e psíquico, de decidir sobre as vestimentas, sobre o território que podem transitar, sobre ter ou não ter direitos civis, sobre possuir ou não a capacidade para escolher qualquer coisa: seja trabalhar, estudar ou até mesmo viver.

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Mas há algumas de nós. Que dizem não. Que rompem a recorrência desse cenário deformado. Que mordem e gritam. E pensam.

No romance Tudo que morde pede socorro (Patuá, 2019), a escritora brasileira Cinthia Kriemler constrói uma narrativa da escravidão dos corpos: a escravidão doméstica, a escravidão infantil, a escravidão pela pigmentação da pele, a escravidão pela colonização de territórios e sobretudo a escravidão de corpos femininos ou com performances femininas. Leonora, Paula Regina, Fazal, Anna Bonifácio são vidas que se unem pela narrativa do corpo dominado – seja no Brasil atual, no Brasil do séc. XIX, no Afeganistão dos anos 90, nas grandes metrópoles ou nas cidadezinhas pacatas do interior desse corpo/território/dominado chamado Brasil. Todos esses corpos são subjugados por um mesmo sistema que, como nos mostra Yuval Harari, em seu livro Sapiens (L&PM, 2018), tem sido a regra em quase todas as sociedades agrícolas e industriais. Um sistema que resistiu teimosamente a insurreições políticas, revoluções sociais e mudanças econômicas. Um sistema que fez Simone de Beauvoir colocar a cara/corpo na TV francesa, em 1975, para revelar que os comunistas estranhamente zombaram da primeira edição de O segundo sexo, além de terem uma reação violenta contra o aborto – reproduzindo o mesmo discurso do homem burguês que legisla sobre o corpo da mulher. Ela contou ao jornalista Jean-Louis Servan-Schreiber:

“Devo dizer que, em 1949, quando escrevi O Segundo Sexo, eu era míope. Eu achava que era preciso militar pela revolução, sou de esquerda e quero mudar o regime, derrubar o capitalismo, mas eu pensava que isso bastaria para que a situação da mulher se igualasse à do homem. Percebi estar muito enganada; nem na União Soviética, nem na Tchecoslováquia, em nenhum país socialista, nem nos partidos, nem no PC, nem nos sindicatos, nem nos movimentos de vanguarda da esquerda o destino da mulher é igual ao do homem.

O romance de Cinthia Kriemler é um desenho desse sistema patriarcal, dessa arquitetura projetada apenas para privilegiar alguns homo sapiens – aqueles com genitália específica e baixa produção de melanina. Tudo que morde pede socorro é a saga de alguns corpos específicos que anseiam pela liberdade.

Leiam um trecho da obra

O que foi que deu errado? O medo da luta? O comodismo? A religião que hipnotiza e apascenta pelas ameaças do eterno? Não sei. Só sei que estamos aqui, tanto tempo depois, em outro continente, sendo convencidas do que a mulher não pode.

Fazer das próprias carnes o que quiser. Não pode. Falar, sentir, calar o que quiser. Não pode. Entregar o corpo a quem e quando quiser. Não pode. Usar a roupa que quiser, a hora que quiser. Não pode. Andar sozinha nos lugares sem ser estuprada. Não pode. Recusar o assédio de um homem. A mulher não pode. Dizem as igrejas em suas manifestações retrógradas e manipuladoras. Dizem algumas mães com base na sua própria experiência de obediência e castração. Dizem os pais que fazem das suas filhas moedas de troca. 

O teatro do absurdo segue em frente, protegido por leis que não bastam e pela cumplicidade dos que se calam. E assim seguimos nós. Tendo que. Foder, gemer e gozar para saciar e dar prazer ao homem. Criar filhos sozinhas para poupar o homem.  Abaixar a cabeça para não incomodar o homem. Aceitar para agradar o homem.

Mas há algumas de nós. Que dizem não. Que rompem a recorrência desse cenário deformado.  Que mordem e gritam. E pensam.

(Cinthia Kriemler, Tudo que morde pede socorro, p. 35-36, Patuá, 2019)

Cinthia Kriemler é Relações Públicas. Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, e mora em Brasília – capital do país. É autora, pela Editora Patuá, de O sêmen do rinoceronte branco, com lançamento previsto para fevereiro de 2020 (Contos); Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015) – semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz a convite da Editora Penalux, em 2017. Tem textos e poemas publicados em diversas antologias e em revistas literárias.

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